Moro em São Paulo há doze anos. Por oito deles, me locomovi principalmente de carro. Nos últimos quatro, passei a andar a pé e de metrô. São Paulo é a mesma cidade — mas não é a mesma experiência.
De carro, você vê fachadas. A pé, você vê pessoas. De carro, você percebe o trânsito. A pé, você percebe o calçamento quebrado, a árvore que está morrendo, o senhor que vende amendoim no mesmo lugar há quinze anos, a placa de um restaurante que você nunca teria notado. A cidade que você conhece de carro é uma cidade de superfícies. A cidade que você conhece caminhando é uma cidade de texturas.
A política do passeio
Isso não é trivial. A forma como nos movemos pela cidade determina o que consideramos problema urbano. Quem anda de carro tende a ver como problema o que atrapalha o carro: trânsito, falta de vaga, semáforo longo. Quem anda a pé tende a ver como problema o que atrapalha o pedestre: calçada ruim, falta de sombra, distâncias longas, insegurança.
Quando a maioria dos tomadores de decisão de uma cidade se locomove de carro — e no Brasil, isso é a regra nas classes mais altas — as políticas urbanas tendem a refletir essa perspectiva. Mais vias, mais viadutos, mais estacionamentos. Menos calçadas, menos ciclovias, menos transporte público de qualidade.
O que muda quando você começa a andar
Há um efeito que não esperava quando comecei a andar mais: passei a conhecer meu bairro. Não o bairro do Google Maps — o bairro real, com seus atalhos, seus horários, seus personagens. Comecei a cumprimentar as mesmas pessoas. Comecei a ter opinião sobre o que funcionava e o que não funcionava na calçada.
Isso é o que Jane Jacobs chamava de "olhos na rua" — a vigilância informal que acontece quando há pessoas caminhando, que torna os espaços públicos mais seguros e mais vivos. Não é nostalgia por uma cidade que nunca existiu. É uma observação sobre como a vida urbana funciona quando as pessoas estão presentes nela.
Caminhar pela cidade não vai resolver os problemas urbanos do Brasil. Mas talvez ajude a ver quais são eles.